Uma carta à nossa primeira filha

Querida Sofia,

Que diferença uma semana faz. Não à toa que contamos a gravidez em semanas. A cada sete dias eu ficava maravilhada com alguma coisa nova em você, um novo órgão pulsando, uma nova mudança no meu corpo. Me lembro do primeiro ultrassom com 7 semanas. Você parecia uma pequena cigarrinha do tamanho de um blueberry, mas seu coração já batia para nós. Seu pai e eu ainda estávamos um pouco em estado de choque, tentando absorver o quanto você mudaria as nossas vidas para sempre. E eu não tinha ideia. Depois, com 12 semanas, voltei a deitar na maca e deixar que passem aquele gel quentinho (você sabe que antigamente era super gelado?) na minha barriga, morrendo de vontade de te ver. Aquele era o fim do primeiro trimestre e portanto de muitos riscos para você. Nos deu uma sensação de alívio quando vimos você, já era um mini bebezinho, com rosto, perninhas e braços. A cultura geral e a ciência nos diziam, você veio para ficar. Em algum momento até nos deu um tchauzinho e seu pai contou, um, dois, três, quatro, cinco dedinhos. Uau.

Dali em diante tudo ficou muito mais real. Você ganhou nome e sobrenome, ganhou presentes e fãs incondicionais, de San Francisco ao Brasil. Você virou parte da nossa rotina e da nossa família. Quando comecei a sentir você mexer as primeiras vezes eu não via a hora de sentir de novo. Então depois de comer ia correndo deitar no sofá porque descobri que era assim que você gostava de se espreguiçar. Já na semana 19 você mexia todo santo dia. Eu acordava te dando bom dia com seus cutucos na cama, ia dormir conversando com você à noite enquanto digeria o jantar. Você estava ficando tão forte que pela primeira vez seu pai conseguiu sentir também — ele morria de inveja antes — e eu jamais vou esquecer a carinha dele de felicidade.  

Sofia, você não teve oportunidade de nos conhecer direito, mas eu e seu pai não somos dos mais românticos ou tradicionais. Minhas amigas fazem mil planos pra anunciar a gravidez, os mais criativos e dignos de filme. Eu quando soube liguei pro seu pai em lágrimas no chão do banheiro, telefone numa mão e a outra segurando, por muito mais tempo do que eu deveria, aquele palitinho com duas listras rosas. Fizemos mais uns 6 testes desses enquanto seu pai me dizia, agora você acredita que está grávida? Mas eu não acreditava. Não conseguia entender como metade de mim e metade dele estavam ali, se multiplicando dentro da minha barriga. Um lado de mim ainda não acredita que foi real. Soubemos que você era uma menina, a nossa menina, na fila do Whole Foods. Foi quando a médica me ligou com os resultados dos exames de sangue. Meu coração disparou de felicidade, porque eu sempre disse pro seu pai que seria você, Sofia. Acordamos a família toda no Brasil pra contar. De novo, sem muita criatividade ou romantismo, mas sempre com muita, muita alegria. Uma das minhas maiores tristezas é que você jamais vai conviver com seu pai. Ele é o homem mais incrível que existe nesse planeta, você não tem ideia da sorte que temos. Pesquisou, pesquisou e comparou até escolher os melhores berços, carrinhos e mamadeiras pra você. Quando víamos o tal carrinho na rua ele me dizia, olha ali o carrinho da Sofia, orgulhoso de ser o melhor, mais seguro e mais confortável do mercado! Esteve comigo em cada exame, cada consulta, cada dúvida, cada medo. Para muitos, a gravidez é um período de puro êxtase, mas nós também tivemos fantasmas. Será que conseguiríamos cuidar bem de você? Faríamos as melhores escolhas para a sua vida? Conseguiríamos te acalmar quando você chorasse? Me lembro de dizer pra minha mãe que às vezes eu queria deixar você pra sempre na minha barriga, só pra garantir que nunca precisasse conhecer a dor. Eu passaria de novo por todos os sofrimentos que já enfrentei na vida e os que ainda viriam para nunca ter que ver você chorar, apesar de saber que isto seria inevitável.

Quando estávamos entrando no quinto mês, comemorando a metade da gravidez, nós levamos você pro Hawaii. Nós dois sempre adoramos praia e eu aprendi a mergulhar e amar o mar com seu pai, então queríamos te ensinar tudo isso. Sonhamos com a primeira vez que você molharia os pézinhos. Será que gostaria do mar ou ia ser uma criança que adora fazer castelinho na areia? Ia preferir a piscina ou correr pelos gramados do hotel? Nós duas nadamos com tartarugas, golfinhos e arraias, tudo ali, há poucos palmos da barriga. Seu pai e eu juramos que nunca levaríamos você no Sea World ou num Zoologico, mas prometemos que te traríamos de volta assim que você crescesse um pouquinho e quantas vezes quisesse para ver seus bichos favoritos no habitat deles. Livres e soltos, como eu queria que você fosse. Tem tanta coisa bonita nesse mundo, Sofia, tanta coisa que eu queria te mostrar…

Mas que diferença uma semana faz. Uma semana atrás estávamos voltando do Hawaii, felizes da vida com você pulando na barriga. Hoje, minha barriga está vazia porque você se foi, Sofia. O médico nos disse que a formação de um bebê é quase um milagre. Tanto pode dar errado que é impressionante como costuma dar certo–você era a exceção e nós nunca poderíamos pegar você no colo. A decisão de deixar você ir foi a mais difícil que eu e seu pai tivemos que tomar na vida, mas nós optamos por ficar com toda a dor para que você pudesse descansar em paz.

Escolhemos Sofia, um nome de origem grega que significa sabedoria, e não poderia ter sido mais perfeito. Em sua breve passagem por aqui você mais do que nos ensinou, você nos transformou. Expandiu nossos corações de maneira que nunca imaginamos possível. Você não nasceu, mas um amor imenso nasceu de você contaminando não só a nós dois, mas toda a família que estava pronta para te receber. E ontem, uma pequena parte de nós morreu também.

Descanse em paz, minha filha. Nós esperamos por você cinco meses, agora é sua vez de esperar por nós. 

Com amor,
Sua eterna mãe.

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