tempo de mudanças

de vez em quando, a vida da gente passa por uma dessas fases, quando o familiar dá lugar ao desconhecido e você precisa encarar uma nova realidade. mudanças sempre fizeram parte da minha. quando criança e adolescente, morei em vários apartamentos e bairros diferentes. tive quartos novos, uns maiores, outros menores. aprendi a frequentar outras locadoras e bancas de jornal, a fazer um caminho diferente para a escola. aliás, esta foi uma das únicas coisas que durante um bom tempo não mudou, até que, no terceiro ano, também troquei de colégio. aí veio a faculdade, o carro, a maioridade, e muitas mais mudanças. os estágios, pessoas diferentes, escolhas que um dia me trouxeram até São Paulo, e tudo mudou pra valer.

talvez por isso eu nunca tenha sido muito resistente às mudanças – elas sempre foram tão naturais para mim que enxergo quase como um balanço necessário para manter o barco navegando. e mesmo por aqui as coisas mudaram bastante. em seis anos, parece que vivi várias vidas, experimentando formas diferentes de caminhar, sem necessariamente me preocupar com o destino final.

agora, chegou a hora de fazer as malas e mudar novamente. hora de recomeçar. mas será que é recomeço depois de tanta história construída? levo comigo um pedaço de cada uma destas novas mudanças para a próxima e, assim, embora tudo à minha volta seja diferente, existem constantes para as quais eu sempre poderei voltar: as amizades, os amores e a família.

sempre avante.

changes

Carta aberta a uma carioca

Querida amiga, 

Sempre soube que este dia chegaria – e não tardaria. Hoje é o dia em que você concretiza um desejo latente, o de voltar a morar no nosso Rio de Janeiro. Todo mundo sabe que morar em outra cidade não é fácil, mas acho que há uma certa subestima quando se trata de Sp: “é logo ali do lado”, “em 45 minutos você está em casa”. Mas eu e você sabemos que é muito mais do que isso. É muito mais do que não ter a praia, do que ter que se acostumar com temperaturas abaixo de 15oC. É mais do que abrir mão da beleza natural e do jeitinho carioca. Morar em outra cidade, você sabe, é ter que descobrir a si próprio. É não ter referências – de bairro, de escola, de lugares, de memórias. É não ver rostos conhecidos nas ruas e nos bares. É se perder no mapa, mesmo com GPS. Mas também é um monte de outras coisas: é ter amigos que são como família. É criar novos hábitos, descobrir as delícias e durezas da solidão. É valorizar, como nunca, o cheiro do mar e a comida quentinha da casa da mãe. É você e você, with a little help from your friends.

Depois de mais de três anos morando fora, espero que sua volta pra casa seja doce. Espero que você valorize cada pedacinho do que já tomava como rotina e redescubra, no antigo, a pessoa nova que se tornou. 

Pra mim, hoje é o dia em que mais uma amiga deixa São Paulo, e também o dia em que ganhei uma amizade eterna. 

Com amor,

Anaik 

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cinco anos depois

se alguém me dissesse, há cinco anos, que 29 de junho seria um dia marcante na minha vida, ainda não saberia bem porque. era um domingo de sol, dia seguinte ao casamento de uma das minhas primas mais queridas, e eu arrumava algumas malas e sacolas no meu carro para pegar a estrada rumo a Sp. de lá pra cá, essas “algumas malas” viraram uma casa com eletrodomésticos, móveis, louças, objetos de decoração; esse carro virou bicicleta e essa prima, a mãe de um menino lindo. naquele dia, eu achava que estava apenas mudando de cidade. cinco anos depois, eu sei que estava, na realidade, dando um dos mais significativos passos em direção a minha própria vida. 
lembro dos meus avós se despedindo na garagem, ela, em prantos, como se eu estivesse indo para a guerra – uma batalha, talvez. lembro de, ao chegar na cidade, me perder na marginal tietê, numa época em que gps e smartphones não eram tão comuns. lembro da primeira noite depois do trabalho quando a geladeira não tinha automaticamente se reabastecido. lembro de começar do zero: novas amizades, novos bares favoritos, novo dentista, nova rotina. 
conversando com uma amiga sobre esses cinco anos, ela comentou como o tempo passara rápido. para mim, a sensação é de muito tempo. acho que vivi várias vidas, nesses cinco anos. vi gente chegar e ir embora, restaurantes abrirem e fecharem, vi a cidade parar com o trânsito e até, quem diria, com a população lutando por um país melhor. 
hoje, sei que esta época, dure mais quanto durar, será sempre um capítulo fundamental da minha história. e que o dia 29 de junho nunca mais será apenas um dia qualquer: é o dia em que eu fiz uma escolha; e das boas, porque, cinco anos depois, continuo apostando nela.  

cariocas não gostam de dias nublados

há três dias, Sp está cinza. chove e faz frio o dia inteiro, sem parar, e, como se não bastasse, o final de semana no Rio também foi cinza. tem alguma coisa no tempo fechado, nos dias escuros, que afeta diretamente o humor de nós, cariocas. acho que tem a ver com o hábito de uma vida inteira acordando ao sábados e espiar pela janela para ver se ia dar praia. de quem não sabe o que é inverno e acha 20 graus frio, de quem tinha um par de botas, em vez de cinco, e nenhum de meia-calça. ou talvez seja só uma pirraça, um mimo de quem cresceu acostumado a uma cidade ensolarada e colorida. 
particularmente, não me importo com o frio, acho até gostoso um dia geladinho e azul, apesar do ar seco que costuma castigar Sp nos invernos. mas a combinação de frio e chuva, aquela chuva que permanece é difícil. o jeito é aproveitar as nossas companhias favoritas, abrir um vinho, um livro, tirar o atraso dos seriados e do cobertor. 
o inverno chegou. 

apaixonando-se pela cidade

nesse tempo que moro em Sp, vi muita gente ir e vir. amigos do Rio que vieram, amigos que voltaram, amigos que fiz aqui e foram morar fora, ou voltaram para suas cidades natais. e a migração continua – nos dias de hoje tenho tido a sorte de ver até primas crescendo e experimentando a selva paulistana. agora, uma colega de trabalho e também amiga está no processo de uma possível transferência de Buenos Aires para cá. e como diria minha chefe, nossa missão é faze-la se apaixonar por Sp. 
percebi que, de um jeito ou de outro, sempre assumi esse papel com as dezenas de pessoas a quem conheci durante a adaptação. não que eu tenha me apaixonado tão facilmente assim, mas por alguma razão sempre fui mais receptiva ao novo, e foi assim também com a nova cidade. Sp me conquistou aos poucos, devagarzinho, mas atualmente me vejo morando em pouquíssimos outros lugares fora daqui. adoro ter vários debates por e-mail com minhas amigas a cada quinta-feira, quando saímos juntas, apenas para decidir o destino. são tantas opções, tantos estilos, que fica até difícil (mas delicioso) escolher. também adoro que já tenha visto esse mesmo grupo se transformar ao longo dos anos, enquanto umas iam embora, as outras sempre acolheram as que chegavam. adoro ir ao show do The Killers em um final de semana, assistir o Rei Leão (musical da Broadway) no seguinte, não conseguir ingresso para a exposição de Game of Thrones e conhecer um restaurante novo a todo momento. sobretudo, gosto da relação que você tem com a cidade, para o bem ou para o mal. ela existe, você faz parte dela e está ciente disso a todo momento. no Rio, como bem me colocaram outro dia, a sensação é de um cenário. o Rio é lindo, está lá, mas o carioca não se relaciona com a cidade – ele apenas vive nela, feliz e desapercebido, até o dia em que se muda. 
acho que Sp muda você, para sempre. muito antes de vir pra cá, lembro de uma moça que trabalhava comigo contar de sua experiência por seis anos aqui. ela era do Sul e passou uma temporada paulistana antes de ir para o Rio: foram os anos em que estive mais branca, bêbada e gorda, mas mais feliz
como toda grande cidade, Sp não é feita de um grande grupo, mas de vários pequenos nichos. é preciso encontrar o seu cantinho e se deixar… apaixonar.