tempo de mudanças

de vez em quando, a vida da gente passa por uma dessas fases, quando o familiar dá lugar ao desconhecido e você precisa encarar uma nova realidade. mudanças sempre fizeram parte da minha. quando criança e adolescente, morei em vários apartamentos e bairros diferentes. tive quartos novos, uns maiores, outros menores. aprendi a frequentar outras locadoras e bancas de jornal, a fazer um caminho diferente para a escola. aliás, esta foi uma das únicas coisas que durante um bom tempo não mudou, até que, no terceiro ano, também troquei de colégio. aí veio a faculdade, o carro, a maioridade, e muitas mais mudanças. os estágios, pessoas diferentes, escolhas que um dia me trouxeram até São Paulo, e tudo mudou pra valer.

talvez por isso eu nunca tenha sido muito resistente às mudanças – elas sempre foram tão naturais para mim que enxergo quase como um balanço necessário para manter o barco navegando. e mesmo por aqui as coisas mudaram bastante. em seis anos, parece que vivi várias vidas, experimentando formas diferentes de caminhar, sem necessariamente me preocupar com o destino final.

agora, chegou a hora de fazer as malas e mudar novamente. hora de recomeçar. mas será que é recomeço depois de tanta história construída? levo comigo um pedaço de cada uma destas novas mudanças para a próxima e, assim, embora tudo à minha volta seja diferente, existem constantes para as quais eu sempre poderei voltar: as amizades, os amores e a família.

sempre avante.

changes

a sombra que me habita

Agitada, tagarela, espoleta. Foi com esses adjetivos que passaram a vida me descrevendo. De fato, tenho bastante energia, sou sociável, me adapto com facilidade a ambientes novos e faço amigos na mesma velocidade em que amarro os sapatos. Adoro sair de casa, ou ter a casa cheia. Não costumo dormir até muito tarde e, sempre que posso, aproveito o sol e ar livre. Definitivamente, nunca fui do tipo depressiva. Até que um dia, fui.

No começo do ano passado, vivia minha melhor fase. Carreira de vento em popa, com direito à promoção em um trabalho que adoro. E a vida pessoal não poderia estar melhor: recém-mudara com meu namorado, estávamos curtindo a convivência, os amigos, as viagens. Mas, ainda assim, eu chorava. Quase todo dia chorava. Às vezes sem saber o motivo, outras, no que parecia uma reação exacerbada a um fato qualquer do cotidiano. Me sentia insegura, frágil e amedontrada. Tentando buscar razões que explicassem minhas emoções, procurava no passado problemas que já não existiam no presente. Questões familiares? Traumas? Qualquer coisa que pudesse justificar aquela sensação injustificável.

Quando a tristeza pode ser facilmente explicável, é mais fácil lidar com ela. Você sabe de onde vem. Você pode se dizer: estou triste porque não gosto do meu trabalho, porque briguei com o marido, porque perdi uma pessoa querida. O problema da depressão é ser a própria causa e ao mesmo tempo consequência. Você passa a questionar tudo que deveria servir como apoio, não sente como alguém que mereça aquilo tudo e, portanto, acha que virá a perder.

Engraçado como numa época em que as pessoas compartilham tanto de suas vidas pessoais umas com as outras, esse estado mental – que nada mais é além de uma doença química – possa ter tanto estigma. As pessoas mais próximas não percebiam. Elas viam meu sorriso, mas não escutavam o choro dentro de quatro paredes. Eu exibia autoconfiança, mas me sentia a pior das criaturas. Hoje, entendo que deveriam olhar para mim e pensar o que tantas vezes havia pensado de outras: veja como a vida dela é boa, como ela é feliz.

Todo mundo quer ser feliz. Nunca conheci alguém que desejasse outra coisa. Mas, na maior parte do tempo, a gente esquece que felicidade não é o oposto de tristeza. Talvez a felicidade seja um estado pleno, e que, em sua plenitude, aceite também momentos mais sombrios.

Do meu lado, fiz um tratamento e superei a depressão clínica. Também passei a enxergar com outros olhos aqueles que compartilham desta condição. Era tão mais simples julgar silenciosamente, como quem diz, você precisa ser forte, todo mundo tem seus problemas. Supera. Torço para que todos tenham o apoio necessário para enfrentar seus próprios fantasmas. E sigo em frente com a certeza de ter em mim uma sombra, que pode ficar maior ou menor, dependendo da intensidade do sol.

arcoiris

rotina

levantar, escovar os dentes, não esqueça do fio dental. nem do protetor solar. mesmo no escritório? sim, só pra sair de casa. tomar banho e passar desodorante, hidratante, perfume, maquiagem. fazer exercício, todo dia, de preferência. mas coma alguma coisa antes. e depois, porque o café da manhã é a refeição mais importante do dia. sem exageros na cafeína e não esqueça das vitaminas. beba água, muita água. mais água. almoça, um prato colorido, equilibrado. check-list mental: folhas, proteína magra, carboidrato integral, legumes. e sem beber água – mas só agora. escove os dentes novamente. mais água. e coma de três em três horas. à noite tem mais escovação, fio dental, bochecho. tirar a maquiagem e lavar o rosto. passar o creme. e beber mais água.

 

agora repete.

amor que não se mede

Quando nasci, dia 21 de maio de 1985, de alguma maneira o universo sabia que este mundo seria demais pra mim. Talvez por isso, quatro dias depois, tenha mandado outra geminiana para me fazer companhia, para achar graça da minha ironia sádica, para conversar comigo sobre o que quer que fosse necessário, mesmo quando um elefante branco e cor-de-rosa insistia em sentar na sala.

Fosse a vida um filme, cada momento destinado a se tornar inesquecível seria acompanhado de uma trilha sonora inequívoca, só para garantir que nós soubéssemos que ali, naquele instante, estávamos construindo memórias. Mas eu não precisei de nenhum truque de edição para marcar a primeira tarde de neve do que seria um longo inverno em Washington, nem a carta muito atrasada para uma balada e muito cedo para um exame de sangue que certo dia encontraria no meu quarto. Eu já sabia, na emergência daquele hospital em Rockville, Maryland, na sala de espera do vestibular, nos jantares do Ritz e nas noites da Baronetti que o universo tinha mandado ela de presente para mim.

Muitos anos depois, durante minhas férias, uma mensagem no Whatsapp perguntava se eu ainda estava no hotel. Para qualquer outra pessoa eu teria perguntado porquê. Para ela, eu disse apenas, sim, pode me ligar. E pensei: para você, estou sempre. Ainda bem que eu de fato estava no hotel e pude atender, porque aquele telefonema era para testemunhar, em primeira mão, a felicidade explodindo em um anúncio: “amiga, eu fiquei noiva”.

Minha vontade imediata foi entrar no primeiro avião de volta, pegar um táxi rumo a Ipanema para dar um abraço nela e dizer, estou tão, tão feliz, você será a noiva mais linda do planeta e eu não quero perder nem um segundo desse dia!

Foi aí que eu me lembrei de uma das mais marcantes frases que já li, na história real do filme “Into the Wild”:

Happiness only real when shared

Obrigada por compartilhar comigo.

aquilo e aqueles

duas coisas me fazem sair de casa: lugares e pessoas. lugares novos para descobrir ou antigos para curtir, podem ser restaurantes, cidades, casas, bairros. aquelas pessoas cuja companhia transforma qualquer lugar no melhor programa – de um boteco na esquina a um cinema mal escolhido -, ou aquelas outras que você ainda vai conhecer – algumas vão ficar, outras não, algumas vão até voltar.

em são paulo, costumam ser os lugares. numa cidade deste tamanho a oferta parece inesgotável, e enquanto me pego tentando tirar o atraso e ir onde ainda não fui, a lista só faz crescer. sp é um lugar onde as pessoas fazem suas vidas e elas giram em torno dos lugares. pode ser uma escolha baseada em proximidade geográfica (o trânsito é sempre um fator de peso), em preferências e gostos, até em estilo de vida. aqui, você pode ser um notívago que vara a noite na augusta, um tri-atleta de final de semana que acorda às 5 horas para correr no parque, um colecionador de antiguidades que roda o estado à procura de seus objetos favoritos. na segunda-feira, todos vão se encontrar no trabalho, fazer happy hour durante a semana e dividir ideias no almoço. aí, nos finais de semana, cada um volta para a sua vida e suas paixões. na capital paulista, parece que cada um de nós tem uma pessoa física e outra jurídica.

já no rio, é tudo sobre pessoas. com quase 250km de litoral na cidade, o carioca tem um ponto fixo (que de tempos em tempos migra) na praia. tem também os bares e restaurantes que vai, mesmo que não ache a comida das melhores, porque é lá onde vai encontrar a sua turma. ao contrário do paulistano, no final de semana o carioca vai atrás de uma vida em comum, onde hábitos e preferências são compartilhados com aqueles que frequentam a sua vida. de um jeito ou de outro, todas essas pessoas são pequenos pedacinhos de você. mais do que fazer parte, elas ajudaram a construir sua rotina.

os momentos inesquecíveis são aqueles quando você consegue estar no lugar perfeito, com as pessoas que escolheu, mesmo que isso signifique, às vezes, carrega-las um pouco para dentro do seu universo particular.   

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