com os dois pés dentro

algumas pessoas parecem capazes de se entregar à vida, às experiências e ao outro, de corpo inteiro. outras, mais cautelosas – ou mais machucadas – deixam sempre um pé ali, pronto para pular fora no instante em que tudo desmoronar. pensam assim estarem se protegendo da dor maior que é a decepção. mas e se, na verdade, essa cautela for a própria origem do sofrimento?

durante muito tempo, olhei a vida com o que alguns chamariam de pessimismo, mas considerava mera administração de expectativas. ao antecipar sempre o que pode dar errado, acreditava, evitaria frustrações quando as coisas de fato dão errado (o que acontece um bocado).

descobri que isso é uma grande besteira. quando as coisas dão errado, você se frusta igual, sofre igual, não importa quantas vezes já tenha considerado aquela possibilidade ruim. quem nunca teve um parente doente, cuja morte iminente estendida por meses, às vezes anos, não atenuou em nada a dor da perda? o problema é que, ao manter esse distanciamento necessário para auto-proteção, acabamos sabotando exatamente aquilo que não queremos perder em primeiro lugar. em vez de se preparar para a morte alheia – o que não vai funcionar mesmo – porque não aproveitar cada segundo daquela companhia? afinal, ninguém nunca sabe quanto tempo tem mesmo, e pior do que sofrer uma perda, é sofrer a perda de uma relação nunca completamente vivida.  

talvez a vida funcione assim mesmo. todos aqueles clichês que nos lembram a necessidade de aproveitar o presente tem um motivo muito menos óbvio do que parece: nós nunca vamos conseguir controlar o futuro. nunca vamos saber o que teria acontecido “se”. e antecipar as pedras do caminho jamais vão impedir que elas existam, muito menos diminui-las. como se não bastasse, as verdadeiras coisas difíceis a gente não consegue prever, nos pegam sempre de surpresa. nos deixam sem chão.

aí uma hora a gente levanta e caminha outra vez. então que mal há estar aqui, agora, vivendo com os dois pés dentro?

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as dores e delícias do seu navio

é raro eu sentir falta da infância. na verdade, isso dificilmente acontece. mesmo com as contas para pagar, a geladeira que não se auto-abastece e os novos números na agenda do celular (diarista, eletricista, encanador), cá pra nós, a vida adulta é muito mais interessante.

vez por outra, escuto de amigos as saudades que eles têm daquele tempo, de quando as férias eram muito mais longas, quando suas responsabilidades se limitavam ao colégio e ao curso de inglês e quando o maior de seus problemas era a prova de matemática. pois eu me lembro de não poder programar minhas próprias férias – seja por falta de dinheiro ou de autonomia -, de ter infindáveis obrigações no colégio que, ao contrário do trabalho, eu não escolhi, e de sofrer com as minhas inaptidões para ciências exatas – maldição que deixei para trás ao decidir pelo jornalismo. 

ser criança, para mim, era de um tédio… as tardes longas, a televisão, as aulas às 7 horas da matina. poucos momentos talvez sejam equiparáveis à fase que vivemos hoje: ganhando nosso próprio dinheiro, vivendo nossas próprias escolhas, com uma flexibilidade que permite jantar um pedaço de queijo e viajar de uma hora para outra, donos de nosso futuro e de nossa juventude já menos inocente, não é tão difícil entender porque as mulheres da minha geração, em sua maioria, têm filhos cada vez mais tarde. quem é que está com pressa de abrir mão da liberdade pela qual esperamos a adolescência inteira? 

a vantagem e desvantagem de ser criança é não ter de fazer suas próprias escolhas, pelo menos as mais importantes. isso significa se abster das respectivas suas consequências só para depois poder culpar os pais na terapia – saudável, não? 

crescer, em sua essência, é ser alçado de marinheiro a capitão, é segurar com força o leme, enfrentar as tempestades e os dias de mar calmo e sereno. talvez, com sorte, você continue tendo uma tripulação com quem contar. mas a responsabilidade do navio, ah, essa agora é toda sua.   

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duas sacas de sal

os portugueses dizem ser é preciso consumir duas sacas de sal antes de se conhecer alguém de verdade. recentemente, descobri que há uma verdade muito importante neste ditado: cometi meu maior erro de julgamento até hoje. quando conheci uma pessoa, tirei-a por menos. todos à minha volta diziam para ter calma, para dar uma chance, dar um tempo para essa pessoa. e eu, do alto da minha soberba juvenil pensava que esse tempo só serviria para que eles percebessem o quanto estavam errados. me enganei.

o tal do tempo passou e essa mesma pessoa é hoje uma das que mais admiro e por quem tenho um grande carinho. olhando para trás, só posso pensar o quanto eu estava enganada e como deveria ter dado ouvidos aos mais experientes – culpo a proximidade dos trinta por esse novo hábito de fazer mea culpa. ainda acredito em afinidade e sei que essa bate de cara. na maior parte das vezes, na primeira conversa já dá pra sentir. quem nunca passou por isso, e também pelo contrário – a absoluta falta de assunto, de sintonia, de simpatia?

só que aí, mais uma vez, entra em cena o tal do tempo. com o passar dele, muitas dessas pessoas de quem gostamos vão perdendo o sentido, seja porque nós perdemos os interesses em comum, seja porque descobrimos lados não tão gostáveis, ou seja porque alguma coisa dentro de nós mesmos muda. para falar a verdade, nunca entendi direito como se dá esse processo de desgostar de alguém, mas na prática, todos já vimos acontecer – com amigos, namorados, colegas de trabalho, até lugares.

e tem aquelas pessoas que quanto mais o tempo passa, mais a afinidade cresce. são atitudes, momentos vividos juntos, silêncios compartilhados, alegrias celebradas, que só fazem crescer o respeito, o gostar. acontece, ironicamente, que isso você só pode descobrir… com o tempo. vai ver que eram essas as tais sacas dos portugueses: há de se dar uma chance para as pessoas serem quem elas são.

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você tem pressa de quê?

quando pequena, minha avó carinhosamente me chamava de “dona pressinha”. ela, que tem seu ritmo próprio, às vezes achava o meu muito acelerado para acompanhar. anos mais tarde, receberia do namorado esse artigo, que conta a história de uma mãe cuja filha, ao contrário dela, leva a vida vagarosamente. definitivamente, se a pressa fosse um dos pecados capitais, seria o meu. tivesse a igreja católica elaborado a lista hoje, provavelmente seria. talvez, nos idos do século XIV, as pessoas não tivessem tanta pressa. o tempo, apesar de mais curto (já que morria-se mais cedo), devia parecer mais longo e a necessidade de fazer as coisas rápido não superaria as de executá-las bem.

para mim, a agilidade é, como quase toda característica acentuada, uma vantagem e uma desvantagem. sou capaz de fazer várias coisas ao mesmo tempo, de terminá-las mais rápido do que a maioria, mas pareço incapaz de refazer, repensar, esperar. como o texto da mãe frustrada bem coloca, o problema da eterna pressa é deixar passar muitas coisas pelo caminho. afinal, quando você repara a beleza de uma estrada, quando dirige depressa ou quando passa devagar, com calma?

ainda que em certos momentos a velocidade seja fundamental, na maioria das vezes, é irrelevante. qual a diferença se você chegar em casa cinco minutos mais cedo? fizer o supermercado 10 minutos mais rápido? jantar 15 minutos depois, para se permitir um banho mais demorado?  tenho a sorte de ter na minha vida a avó e o namorado, para me lembrarem de desacelerar. mas essa é uma das minhas (muitas) batalhas que, como sempre, começa com a decisão de tentar.

aqui fica o voto de uma semana menos apressada.

Contradição: parando a corrida para admirar o percurso

Contradição: parando a corrida para admirar o percurso

saudades do bem

não me considero uma pessoa saudosista. dificilmente me pego com a cabeça em um tempo que passou, idealizando pessoas e situações vividas, desejando voltar ao que um dia foi legal. dizem que a felicidade real está em viver no presente, e esta é uma tarefa muito mais difícil do que parece. mas se a minha balança emocional tombasse para um lado, definitivamente seria em direção ao futuro, não ao passado. procuro aproveitar a situação atual, ciente de que tudo muda, sempre, e provavelmente onde estamos é consequência do que queremos – ou precisamos – neste momento. talvez por isso algumas amigas me considerem mais facilmente adaptável ao novo, pela vontade que eu tenho de conhece-lo, abraça-lo, com a certeza inegável de que não sou uma árvore

mesmo assim, admiro a capacidade que alguns têm de olhar para trás, reconhecer a própria história e ser feliz, uma vez mais, com as memórias que construíram. um artigo recente do NYTimes sugere que a nostalgia pode ser muito positiva, na medida em que nos ajuda a entender a continuidade de nosso caminho, do que nos trouxe até aqui. segundo os pesquisadores, o que faz mal é cair na armadilha de achar que o passado guarda os melhores momentos e nada nunca será tão bom como antes. 

imbuída do melhor espírito nostálgico, passei os últimos dias reunindo alguns dos melhores momentos que trago comigo. deu nisso: 

  • as férias em teresópolis. o calor do sol de serra, o cabelo verde do cloro, as noites perto da lareira, as aventuras pelo condomínio. 
  • meus patins, que não saiam do pé, às vezes até dentro de casa para desespero da minha mãe. 
  • as terças-feiras, dia em que minha avó me buscava no colégio e passávamos juntas, no shopping e na casa deles, com direito a misto-quente. até hoje tenho uma simpatia pelo dia. 
  • ouvir a música favorita da época nas “7 melhores da Jovem Pan” ou no Disk-MTV. 
  • meu walkman. as fitas (mal) gravadas, os fones destruídos, as pilhas-reserva. 
  • o melhor lanche do recreio: matte leão (com limão, por favor) e peito de perú com queijo. 
  • meu primeiro carro. duas portas, sem direção hidráulica, vinho e com um adesivo da Didi. 
  • o intercâmbio nos EUA com a Carol. acordar com a rádio-relógio gritando “Hot 99.5”, morrer de frio no ponto de ônibus, matar aula e se apaixonar por NYC. 
  • estar na faculdade. fazer trabalho de fotografia, “jogar” futebol americano na praia, se divertir no estágio, dormir pouco, beber demais – e não ter ressaca. 
  • ter tido a sorte de morar no Rio

acredito no Sinatra quando ele diz que o melhor ainda está por vir. e se vida ainda pode ficar melhor que isso, ah, então vale a pena ir em frente.

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